publicado em 07/11/2013 às 06h48
O Fim do Exame de Ordem não beneficiaria as faculdades de péssima qualidade

Encontrei um artigo muito interessante que trata, essencialmente, da qualidade do ensino jurídico hoje. Vale a leitura:

Atualmente, os bacharéis em direito são obrigados a prestarem o Exame da Ordem para poderem exercer suas funções profissionais. A reprovação no exame da Ordem é a certeza de ter perdido anos e dinheiro na formação acadêmica.

Há justificativas para a manutenção do Exame da Ordem como, por exemplo, o Bar Examination. O Bar Examination é um teste destinado a determinar se um candidato está qualificado para exercer a advocacia e está presente em muitos países.

A realidade brasileira

O problema no Brasil está no credenciamento, pelo MEC, de universidades hipossuficientes didática e tecnicamente para formação dos futuros advogados. A situação é tão grave que o MEC pretende criar autarquia para aumentar fiscalização sobre universidades privadas. Se por uma lado se diz que a culpa é dos alunos, que não estudam com seriedade, por outro, pela necessidade do MEC em criar autarquia, nos remete ao pensamento que a culpa também é dos docentes e da universidade.

Muitos dos docentes são agentes públicos administrativos (juízes etc.), outros apenas advogados com mestrado e doutorado. O que pode estar acontecendo é a falta ou precariedade nas didáticas dos docentes. Muitos alunos de universidades reclamam que os docentes entram na sala de aula e começam a falar sem parar, depois do falatório mandam os alunos lerem páginas e mais páginas.

Muitos dirão que universidade não é local de pessoas com mentalidades de ensino médio (antigo 2° grau) sendo imperioso o amadurecimento diante da nova vida acadêmica. Até aí tudo bem, pois universidade formará cidadãos profissionais que se relacionarão com vidas humanas sejam médicos, advogados, engenheiros, enfim, estudar serve para melhorar a vida do grupo humano e até da humanidade.

A educação no Brasil é uma das piores do mundo tanto intelectual quanto moral. A intelectual é o conhecimento técnico, a moral é quanto o questionamento do por que da existência do ser humano, da transformação do mundo através do saber e da profissão. Ao final do curso os alunos são “fabricados” para dar desempenho à economia, não tendo a premissa universalista à qualidade de vida.

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A escolha de uma carreira está embasada no quanto se poderá lucrar depois de formado. Não é à toa que medicina, por exemplo, é um dos cursos acadêmicos mais concorridos do Brasil. Os meios de comunicações especificam quais profissões estão em voga no mercado levando milhões de pessoas a se inscreverem e tentarem se formarem na profissão dos sonhos, ou do futuro – muitos que se formaram sentem frustrações, pois quando entram no mercado de trabalho veem que os altíssimos salários divulgados não passam de miragens perante a presença de pirâmide (alusão aos empreendimentos chamados de pirâmide financeira, onde quem está no topo é quem ganha realmente). Por sua vez, os profissionais, que aplicam os testes vocacionais, sempre priorizam o gostar do que fará, como meio de superação, diante de crises econômicas e mudanças nos valores sociais de status numa profissão.

Ainda há, em pleno século XXI, nas salas de aula existe a alienação social como princípio seja a competição entre os alunos, as relações dos não eleitos e eleitos (grupos de alunos com mais facilidades de aprender e os que não possuem tanta facilidade), a segregação por notas, a separação de sexos em nome do desempenho etc.

Padronizações no ensino não refletem a essência das instituições diante da complexidade humana

Os métodos usados por muitos docentes podem não ser os melhores para os alunos. Não se trata de ensinar o aluno de 3° grau a aprender a soletrar, fazer cálculos básicos – se bem que a realidade brasileiro com as aprovações automáticas formaram analfabetos funcionais colocando o Brasil numa situação perigosa ao desenvolvimento socioeconômico futuro –, mas na forma de transmitir conceitos, valores. Associações são bem-vindas para se transmitir compêndios acadêmicos, o uso de palavras deve se adequar ao grau de entendimento dos alunos (vocabulário), primeiramente, mas sem deixar de transmitir as terminologias inerentes à profissão.

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É muito frustrante ao aluno iniciante entrar numa sala de aula e ouvir termos que nunca escutou, ter que acompanhar o falatório rápido do docente que, ao final da aula, apenas diz “leiam às páginas…”.

O Exame da Ordem seria plausível se todo o sistema de ensino passasse por uma reformulação, a começar:

Pela fiscalização do MEC, em não permitir que instituições de ensino precárias didaticamente continuasse a funcionar;

A formação dos docentes deveria ser mais humanizada de forma que, posteriormente, considerasse cada aluno importante para a formação e desenvolvimento socioeconômica e sociopolítica de uma República Democrática, já que o pilar de uma Democracia é a virtude humana (Montesquieu);

A valorização dos profissionais de ensino que trabalham muito e não são remunerados como devem ser: dignamente – dignidade é ter uma renda per capta capaz de atender as necessidades básica, o direito à cultura, à saúde preventiva;

Acabar e impedir o retorno da aprovação automática;

Investimentos frequentes na educação para que possa manter sempre a infraestrutura necessária ao desenvolvimento acadêmico, desde o fundamental até o 3° grau, do ser humano;

Valorização do trabalho em prol do bem humano, e não em prol de elevação socioeconômico, apenas.

Para terminar, o Exame da Ordem vem prejudicando os já prejudicados, pela ineficiência das instituições de ensino, e da omissão, de décadas, do MEC, em relação à má formação dos futuros profissionais por instituições precárias didática e funcionalmente.

Quem vem pagando muito caro por isso tudo são os formandos, que investiram muito dinheiro – poderia ser investido em empreendimentos – e não têm o direito de exercerem suas profissões, mas tendo que trabalharem em profissões diversas. Perderam dinheiro, tempo e comovem os familiares diante da frustração imposta pelo sistema condenatório ao mais fraco: bacharel em direito.

Há uma violência sem precedentes quando vemos que os bacharéis em direito estão suportando toda carga de responsabilidades que, na realidade, não os compete. Só concorreriam em culpa – como dizem, os bacharéis em direito não possuem o mínimo de conhecimento jurídico; mas culpa deles? – se toda a infraestrutura educacional proporcionasse qualidade. Essa qualidade está intrínseca na relação MEC (fiscalização), docente (transmissão de conteúdo de forma didática – que já foi abordado) e nas políticas de governo de não permitir aprovação automática.

Quanto ao valor cobrado para se fazer o Exame da Ordem, os R$ 300,00 é muito diante da situação brasileira, onde, cada vez mais, os brasileiros vivem contando centavos para pagarem suas dívidas com credores graças às políticas de governo de “pão e circo”.

Conclusão

O Fim do Exame de Ordem não beneficiaria as faculdades de péssima qualidade, pois a origem da má qualidade está na inércia do MEC em proibir o funcionamento de estabelecimento acadêmicos sem infraestrutura educacional.

Por Sérgio Henrique da S Pereira

Fonte: Brasil Progresso



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