publicado em 03/07/2012 às 05h49
Ansiedade, medo e tensão pré-prova

Recentemente, após o término de uma aula de um curso presencial, uma aluna se dirigiu até mim e disse: “professor, estou com muito medo de fazer a prova que terei em algumas semanas. Já acumulo algumas reprovações e acho que será mais uma. O que posso fazer? Me ajude!”.

Bem, desde logo, duas primeiras constatações podem ser estabelecidas: (1) este fenômeno é bastante comum e atinge inúmeros candidatos a concursos públicos e exames, como no caso do Exame da OAB; (2) esta aluna, como os demais candidatos em situação semelhante, aceita qualquer solução que for apresentada, sendo potencialmente uma vítima indefesa dos oportunistas, especialistas sem especialização, que oferecem as fórmulas mágicas e milagrosas da aprovação e da aparente solução de problemas de natureza emocional.

Se você vivencia o fenômeno relatado ou tem receio de que um dia venha vivenciar, estando em busca de uma solução séria, consistente e responsável, não se contentando e acreditando nas fórmulas mágicas e milagrosas, este texto pode lhe dar uma grande contribuição. Seguramente, pode ajudar a superar a mencionada dificuldade, ou evitar que venha a ocorrer, mas desde que tenha disposição para a ler até o final, bem como procure compreender e refletir sobre os conceitos e considerações apresentadas. Se tiver preguiça para ler ou quer uma solução mágica e milagrosa, sugiro que pare por aqui, não continue a leitura e procure os especialistas sem especialização.

O caminho da proposta a ser apresentada neste texto envolve as seguintes etapas:

(1)identificar e compreender qual é e como funciona o presente fenômeno;

(2) tomar consciência de quando o vivencia, bem como da atuação dos mecanismos psicológicos envolvidos;

(3) trabalhar, de forma consciente e responsável, no seu enfrentamento, desconstrução e neutralização.

Primeiramente, é preciso entender que a ansiedade patológica consiste num fenômeno contemporâneo, o qual atinge várias pessoas e se manifesta em várias situações. Os mecanismos que disparam a ansiedade existem para a garantia da nossa sobrevivência. Desde os tempos das cavernas precisávamos disto para evitar que caíssemos nas garras dos predadores.

Atualmente, como não há risco de sermos presas de leões, não deveríamos vivenciar este fenômeno. Porém, temos outros perigos. Além disto, o sistema capitalista, que tem na sua gênese o incentivo à competição, acaba por agravar a necessidade de ativação dos mecanismos psicológicos voltados aos estados de alerta e sobrevivência.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 20% dos moradores das grandes cidades sofrem transtornos de ansiedade, o que, de forma geral, conta com seis modalidades de manifestação: fobias específicas, transtorno de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de ansiedade social (TAS) ou fobia social e transtorno de estresse pós-traumático (ver Mente & Cérebro, Ano XVIII, no. 219, pag. 24).

A ansiedade exagerada com as provas de concursos públicos, a qual pode assumir o status de transtorno de ansiedade, pode ser enquadrada em alguma ou algumas das mencionadas manifestações. Geralmente se enquadra na fobia específica, sendo que por vezes ganha o apelido de TPP – Tensão Pré-Prova.

Portanto, o primeiro passo importante é que, por um lado, você saiba identificar, reconhecer e assumir, quando vivencia uma ansiedade que consiste em transtorno. Por outro lado, também é importante ter consciência de que, se está se preparando para concursos e em busca da aprovação, está sujeito a vivenciar este fenômeno.

Além disto, ao lado da tomada de consciência de que o fenômeno existe e pode estar ocorrendo ou vir a ocorrer com você, é preciso também entender que se trata de algo natural. Ou seja, é preciso normalizar o fenômeno, se convencendo de que não há nada de absurdo nisto, não só para que não se cobre e se penalize, agravando ainda mais o cenário psicológico, como também não se veja como uma pessoa problemática e pior que as outras.

No entanto, cabe alertar que nem toda a ansiedade tem natureza patológicaAté determinado nível, a ansiedade é natural, saudável e necessária.

Geralmente o que determina o transtorno de ansiedade em relação às provas de concursos públicos são as experiências anteriores envolvendo as reprovações. Também é possível que a cobrança de terceiros e o comportamento de outros candidatos, principalmente antes e depois das provas, envolvendo manifestações de arrogância e humilhação intelectual, sejam passíveis de contribuir com o agravamento.

Assim, a formação do fenômeno pode ser compreendida a partir da idéia dos “marcadores somáticos”, o que consiste em conceito criado pelo respeitado neurocientista e neurologista Antonio Damásio. Segundo o autor, estes seriam os mecanismos de respostas que construímos, diante de determinadas situações ou estímulos, a partir das nossas experiências (DAMÁSIO, Antonio. “O Erro de Descartes”. São Paulo: Companhia das Letras, p. 205).

Por exemplo, quando não passamos em determinada prova, agravada por algum outro fato, como uma manifestação de cobrança ou comentário infeliz de um terceiro após a conferencia do gabarito, trata-se de uma situação que pode construir um padrão de resposta negativo e até traumático. Daí, quando nos submetemos a outra prova ou estamos em vias de nos submeter, o mecanismo de resposta tende a disparar. Com isso vem a ansiedade.

Portanto, no fundo, por trás disto há uma lógica de insegurança e busca de sobrevivência, ainda que em termos de imagem.

Muito bem, com as informações até aqui trabalhadas, temos condições de identificar o presente fenômeno, entender como funciona e tomar consciência. Além disto, também podemos e devemos trabalhar na normalização, no sentido de não dar uma dimensão maior que a efetivamente existente, nos convencendo da sua naturalidade.

Mas o que mais podemos fazer?

Precisamos partir para o caminho do enfrentamento. O caminho da desconstrução racional e consciente.

Daí podemos atacar em duas frentes: (1) questionamento e reflexão sobre o processo de construção do fenômeno a partir das experiências vivenciadas; (2) questionamento e reflexão da possível conseqüência desenvolvida.

Para a primeira frente, podemos trabalhar com questionamentos como os seguintes:

- quais foram as experiências desagradáveis que vivenciei? Foi o resultado da prova apenas?

- foi a experiência de conferência do gabarito?

- foi o comentário infeliz, ridículo e desnecessário que alguém fez (para se satisfazer e sentir bem em função da destruição da imagem alheia)?

- o que gerou as emoções desagradáveis, que acabaram por construir este padrão de resposta emocional que gera o estado de ansiedade?

Sem prejuízo de outras perguntas, a partir da sua reflexão, a ideia é entender exatamente como se formou o fenômeno. Isto para ajudar na compreensão do fato de que a próxima experiência, ou seja, a próxima prova, não será necessariamente a mesma que a anterior.

Avançando na reflexão, num segundo momento, cabe partir para a desconstrução, na perspectiva do que vai ocorrer, ou seja, do futuro. Daí, caberia fazer algumas reflexões e questionamentos como os seguintes:

- se evoluí da experiência anterior para agora, em termos de estudos, tenho motivo para achar que terei o mesmo resultado frustrante?

- as minhas condições para passar na prova anterior eram as mesmas da prova que estou fazendo agora? Avancei na compreensão e domínio da matéria?

- o fato de não ter passado na prova anterior, logicamente e racionalmente, me impede de passar nesta prova? Uma coisa implica na outra?

Além desta reflexão por meio de questionamentos, é indispensável que se faça um Diagnóstico das Reprovações anteriores, de modo a ter a clareza, com toda racionalidade e sem dar uma dimensão maior do que a real, das causas do resultado. Para isto, clique aqui e leia o texto Diagnóstico da Reprovação.

Outro aspecto importante consiste na compreensão do que significa fazer uma prova. Ou seja, é preciso entender que fazer uma prova consiste apenas e tão somente numa atividade intelectual na qual somos demandados a mobilizar nossas estruturas cognitivas e realizar raciocínios, no sentido de dar respostas e solucionar problemas (clique aqui para baixar o Ebook sobre Estratégias de Realização de Provas).

Por fim, mais importante do que buscar soluções mágicas e ficar fazendo exercícios visionários de imaginação, consiste na tomada consciência do está ocorrendo, entender o fenômeno, bem como enfrentar e desconstruir a ansiedade exagerada com as provas.

Espero que você encare o tema com a seriedade necessária e encontre o caminho da superação.

Boa reflexão e bom domínio da ansiedade!

Fonte: Blog do prof. Rogério Neiva



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