publicado em 01/04/2015 às 07h59
A (única) razão pela qual a OAB tem de anular questões da última prova objetiva

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Eu não me lembro de uma prova da 1ª fase que tenha sido tão mal recebida por professores e candidatos como a última prova objetiva.

Lembro-me bem do IX Exame de Ordem, a pior prova objetiva até então, e da revolta que ela gerou. Possivelmente esta prova do XVI tenha sido pior, mas não vou afirmar isso de forma categórica antes de ter acesso às estatísticas dela.

Afinal, dificuldade é um conceito subjetivo, e as estatísticas dão ao menos um parâmetro objetivo para alimentar uma reflexão mais séria.

De toda forma, tendo sido a pior ou não, a impressão sobre a prova foi péssima, e aqui, talvez, a pior de todas até então.

E é a impressão que permanece na cabeça das pessoas, e não as estatísticas.

O Blog fará no próximo dia 13 de abril 7 anos, e eu me sinto muito confortável para analisar o Exame de Ordem em perspectiva histórica, pois estou trabalho com isso desde muito antes do processo de unificação total da prova.

E eu, mais do que qualquer outra pessoa, sei muito bem o quando a imagem do instituto Exame de Ordem é arranhada.

O Exame é visto por parte da sociedade como uma espécie de "mal necessário", e por uma outra, como uma prova odiosa e reguladora de mercado.

Ninguém acha que a prova seja maravilhosa.

Quem enxerga a prova como um "mal necessário" sabe de sua importância em função das distorções de qualidade no ensino superior e pela explosão irresponsável de faculdades de Direito no país. Sabe que a conta não vai fechar se a prova porventura acabar e que o sistema vai entrar em colapso.

Quem é contra o é por uma série de razões, sendo que a principal deriva do fato de não conseguir, ao fim, exercer a advocacia por ter dificuldades em ser aprovado.

E todos têm uma nítida percepção sobre os erros cometidos de forma sistemática em seguidas edições.

E aqui está a fragilidade maior do Exame de Ordem perante a sociedade: os próprios erros em sua condução vulneram sua credibilidade.

A prova é aplicada para operadores do Direito! É óbvio que eles serão, dentro todo o universo possível de candidatos, os piores possíveis para uma organizadora. Isso porque eles realmente pensam o Direito e são preparados para LITIGAR! Para a FGV, não poderia ter público pior. Se fossem engenheiros, médicos, psicólogos, administradores, tudo seria mais fácil. O Exame do Conselho Federal de Contabilidade, por exemplo, não dá trabalho nenhum, ou, ao menos, nenhum drama ganha repercussão.

O estudante e o bacharel em Direito formam o pior público possível para a OAB e para a FGV simplesmente porque são operadores do Direito.

Por isso mesmo que qualquer probleminha na prova desperta toda sorte de reações e, acima de tudo, de luta em defesa dos interesses dos candidatos.

Quantos e quantos embates, desde o rumoroso Exame 2009.2, não surgiram? Intervenções do MPF, anulações, fraude na prova, recursos, mandados de segurança e por aí vai?

Sem medo de errar, só me lembro de 3 edições depois do 2009.2 que não deram problemas. E, antes disto, muitas reclamações contra os critérios de correção das provas subjetivas.

E aqui chego ao ponto: quando é que a OAB vai enxergar o fato de que o Exame de Ordem precisa de estabilidade quanto a sua imagem?

Só isso!

E essa estabilidade só vai ocorrer quando os candidatos não tiverem do que reclamar.

Quando a prova for vista como JUSTA. É o que todos falam: a prova precisa ser JUSTA!

E o justo não guarda nenhuma correlação com o fato de ser fácil ou difícil, e sim com ser previsível.

Por que a banca nunca quis publicar o conteúdo programático da 1ª fase? O que custa fazer isto? Aqui teríamos uma excelente margem de previsibilidade quanto ao conteúdo, impedido questões "fora da curva" como a da última prova, comparada com provas da magistratura.

Ou o discurso da OAB mudou e o Exame deixou de ser um instrumento para avaliar o mínimo necessário para advogar?

A prova precisa ser convergente com o discurso.

Ou que tal, como na última segunda-feira, alterar o gabarito e arrebentar com um monte de candidatos que investiram uma grana na preparação para a 2ª fase e agora, no susto, encontram-se reprovados? Por que simplesmente não retificam a prova 2 ou 3 dias depois de sua aplicação?

Percebem? São esse pequenos (ou grandes) vacilos que vão minando a credibilidade da prova, edição após edição.

A prova é visto como uma instrumento exclusivo de reprovação, e não como um instrumento de seleção.

Não é preciso muito, não é preciso fazer nenhuma grande inovação e nem reinventar a roda! Nada disto! Basta ter cuidado na sua elaboração, estar atento às redes sociais, aos pleitos dos candidatos, elaborar questões compatíveis com o público-alvo e tomar decisões de forma célere.

A imagem legada pela última prova objetiva é muito clara: feita para FUDER os candidatos!

Peço perdão pelo termo forte, que não costumo usar, mas é isso que eles, os examinandos, falam por aí. Aliás, falam coisas muito piores.

Com isso, com tantas polêmicas, olhando o Exame em perspectiva edição após edição, percebe-se a construção de uma imagem ruim para a prova, e que acaba inexoravelmente manchando a própria OAB.

Eduardo Cunha tem a perfeita noção da animosidade de um grupo de bacharéis contra a prova, o quanto eles odeiam-na (e a própria OAB), e alimenta um verdadeiro discurso de ódio para ouvidos ávidos em ver, em um horizonte próximo, o fim do Exame.

Todo mundo sabe disto e, mesmo assim, ninguém consegue "domar" os problemas dela.

Como eu disse acima, o Exame não precisa de soluções mágicas, mas sim, única e exclusivamente, de um pouco de cuidado com a forma como é elaborado.

E aqui, talvez como um pedido de boa vontade para a banca da OAB, a demonstração de um pouco de boa vontade com os candidatos reprovados em uma prova desproporcional como foi esta última seja um símbolo a demonstrar que existe ao menos a preocupação de acertar, a preocupação de uma boa vontade.

Eu sei, e de fonte segura, que a reclamação quanto ao que foi a prova reverberou dentro da OAB, não só no CFOAB como nas seccionais. E reverberou em função de questões elaboradas muito acima da capacidade dos candidatos em respondê-las.

Reverberou porque nós temos questões, para variar, que não possuem alternativas corretas.

Por que não anulá-las, ao invés de fazer o jogo duro - e desproporcional - de não anular nada por edições e edições seguidas, ou mesmo anulá-las de forma homeopática, tímida, contida?

Errou? Assume! É isso que dá credibilidade! É isso que faz com que o candidato NÃO se sinta INJUSTIÇADO!

É assim que se constrói a credibilidade!

Assimilem uma coisa: a força de um instituto está diretamente vinculada ao sentimento de necessidade e de credibilidade que ele possui.

Sim, o Exame é da OAB e a OAB é um ente sério, mas a prova vive na berlinda no Congresso há muito tempo, como também viveu por muito tempo na berlinda no Poder Judiciário até o STF botar uma pá de cal sobre o assunto.

Talvez o Congresso não seja assim tão indulgente....

Cabe à Ordem pensar na forma como incrementar a credibilidade do Exame de Ordem. Se a taxa é de R$220,00, que esse dinheiro seja melhor usado na construção de algo mais seguro e justo para os examinandos. Se a prova for justa, ninguém reclama do valor da inscrição, ninguém reclama da prova, ninguém reclamará da OAB.

E é preciso pouco, tão pouco para melhorar o Exame...

Fica o pedido: pensem na credibilidade da prova em 1º lugar. Esta é a razão pela qual a Ordem, para começar, precisa anular algumas questões nesta última desproporcional 1ª fase. O resto virá por gravidade.

E neste resto inclui a derrota de Eduardo Cunha no Congresso.

Do contrário, com o fim do Exame, a profissão será virtualmente destruída. Aí o que custará mais caro mesmo? Investir na prova ou tentar resgatar o ofício de advogar?

Repito: a prova precisa de pouco, pouco mesmo, nada mirabolante, para ter mais credibilidade.

Só querer!



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