publicado em 20/05/2013 às 07h55
A tentação da dispersão nos estudos

Você já foi ou costuma ser vítima da tentação da dispersão, enquanto está empreendendo seus estudos para o concurso público? Como isto se manifesta? Como evitar ou neutralizar e quais os prejuízos que pode causar?

O objetivo do presente texto consiste do desenvolvimento de algumas considerações sobre este perigoso fenômeno.

Primeiramente vamos à descrição. No que consiste e como se manifesta essa tentação da dispersão?

A tentação da dispersão trata-se do fenômeno que ocorre quando estamos estudando e nos vem à mente pensamentos que não guardam relação com o objeto de estudo. Daí nos rendemos a tais pensamos e embarcamos na viagem que ele nos convida a fazer. Por vezes vamos longe, nos distanciando completamente daquele objeto de conhecimento com o qual estávamos mantendo contato. Geralmente, embarcar nesta viagem de dispersão nos proporciona alguma sensação agradável, sendo que, na realidade, o fato de estarmos nos dando algum alívio ou proporcionando tal sensação passa a ser um complicador a mais.

Também é possível que a tentação da dispersão se manifeste por meio de atitudes.

Mas no caso do pensamento, poderíamos parar para indagar: por que por vezes pensamos em algo que aparentemente não tem qualquer relação com os estudos?

No fundo, a causa do problema é a solução para as mais relevantes necessidades que temos ao longo da preparação para concursos públicos: a lógica associativa do funcionamento cognitivo, principalmente da memória.

Ou seja, quando lembramos de algo de forma não voluntária, consciente e planejada, é porque tivemos contato com alguma informação ou experiência relacionada ao pensamento que foi recordado. (Clique aqui para ler Como usar a Lógica Associativa da Memória nos estudos)

O neurologista Antonio Damásio relata uma situação na qual repentinamente e de forma não planejada lembrou de um amigo. Daí começou a refletir o motivo de ter aparecido à mente a imagem do amigo, já que não havia, aparentemente, nada relacionado a ele. Intrigado com a situação e avançando na reflexão, descobriu que havia acabado de se movimentar em sua casa, andando de um modo parecido com o amigo. Ou seja, a atividade psicomotora e inconsciente disparou o mecanismo associativo, que provocou a evocação da imagem do amigo(Damásio, Antonio R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, págs. 136/137).

Com isto, constatamos que, até mesmo de maneira inconsciente podemos ser provocados a ter pensamentos desvinculados dos estudos. Tudo por conta do mecanismo associativo.

Assim, na realidade, a tentação da dispersão consiste num estímulo, em termos de pensamentos ou eventos externos, que passam a ter mais relevância que o estímulo eleito como alvo, ou seja, o objeto de conhecimento a ser estudado.

Neste sentido, vale lembrar que a concentração consiste numa função cognitiva primária, a qual se sujeita a uma lógica de seletividade de estímulos. Isto é, me concentrar significa desconsiderar determinados estímulos para valorizar aquele que elegi.

Por outro lado, ainda conforme a referida sistemática cognitiva, os fatores de desconcentração podem ser endógenos, que seriam os pensamentos que produzimos, ouexógenos, correspondentes aos estímulos externos-ambientais. Daí porque o local de estudo deve ser escolhido com bastante cuidado.

Portanto, a tentação da dispersão consiste num estímulo muito forte e relevante, que nos toma de forma significativa, aparentemente irresistível, bem como tentadora, tirando nosso foco atencional do objeto de estudo.

No caso dos portadores do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, este fenômeno ganha um status patológico e conta com causas de natureza neufisológicas e bioquímicas. Exatamente por isto, a intervenção medicamentosa pode ser necessária. Mas obviamente que pressupondo um diagnóstico preciso, responsável e com a atuação de profissional habilitado.

Estabelecidas as mencionadas premissas a questão que se coloca é: mas como combater ou neutralizar as tentações da dispersão?

Conforme venho sustentado reiteradamente, o primeiro passo é tomar consciência do fenômeno. Não apenas tomar consciência, mas também entender o seu funcionamento.

Isto é, se estou sendo atentado à dispersão é porque há um estímulo que está tentando furtar meu foco atencional, sendo que eu havia eleito como objeto da atenção o estímulo correspondente ao estudo. E mais, este estímulo tentador não veio do nada nem de graça, ou seja, sendo um pensamento, foi determinado pela atuação do mecanismo associativo.

Mas para reverter a presente situação considero que há duas atitudes principais a serem consideraras. A primeira seria, conscientemente e ciente do funcionamento do presente processo, tentar ignorar o estímulo e retomar o estudo.  Ou seja, se sei que estou sendo tentado por um pensamento indevido, não vou alimentá-lo e retornarei ao meu estudo.

O segundo, um pouco perigoso, seria enfrentar. Na caso, também por meio de um processo consciente, procura-se entender a causa de origem do estímulo, se convence de que não faz sentido o valorizar e retorna-se ao estudo. Repare que no caso não se ignora, mas procura-se entender a origem, como caminho para o ataque e neutralização. Porém, é preciso ter cuidado para não alimentar o estímulo e embarcar na viagem prazerosa para a qual somos tentados.

Como estratégia secundária, também caberia usar alguma muleta. Uma primeira seria, diante do aparecimento da tentação, adotar o famoso “só por agora não vou dispersar”, “só por este minuto não vou dispersar”, “só por esta hora não vou dispersar”.

Outra seria adotar um objeto, como aquelas bolinhas de apertar, para usar no momento de surgimento da tentação, inclusive criando um emparelhamento de estímulos, ou seja, quando a tentação vier, aperto a bolinha e retorno ao foco atencional correspondente ao estudo.

Vale lembrar, conforme alertado em outros textos, que também é preciso trabalhar os fatores ambientais. Ou seja, é importante buscar um local de estudo adequado, o qual não proporcione estímulos externos, e no deslocamento já tentar evitar a sujeição a estímulos relevantes, como no caso de determinadas músicas, conversas ao telefone ou rádio de notícias.

Naturalmente que é possível construir outras estratégias. Inclusive, se tiver, peço que deixe a sugestão e dica em forma de comentário.

Mas o fundamental é dominar a tentação.

Bom estudo e cuidado com as tentações!

Fonte: Blog do Prof. Rogério Neiva



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